quinta-feira, 13 de março de 2008

4 partes de 1 mesmo nada

A Queda

"Mulher - Divino Luxo [...]/A dor ninguém suspeita imperial"
Tom Zé - Mulher Navio Negreiro


Começou assim. Um banco, um silêncio, um afago, um beijo, mil pedaços. Era o que tinha de ser naquele momento, dois a rodar, um pulo e um pouco de tédio, a morte engarrafada, deliciosa golada de perigo e dissabor.

Foi naquele momento, até o beijo da pedra, a partida, a caminhada, o melaço, a carona, a despedida, foi naquele momento da janela calma, da olhadela e do beijo engolido, ali, no abraço do inimigo, assim caminhava o destino para o imprevisível. Deus deve ter se remoído todo ao contemplar mais choro, menos racionalidade e mais tesão pelo perigo eminente de ser reduzido a nada. Nada. Na-da.

Caminhou, ouviu os passos, voltou os olhos junto com a cabeça, depois o tronco inteiro, deu um passo à frente, esperou. Tap-tap-tap-tap-tap, a corrida foi rápida, sentou, puxou-o para perto, disse qualquer coisa, apareceu alguém, alguém apareceu e o levou para longe. Levantou, andou, carona, casa, sono.

O Coice

"You launched the assault with the first cannonball/
my soldiers were sleeping"
Sean Lennon - Friendly Fire


O dia começou dolorido, rasgando desejos e escondendo a cara do sol. Era assim agora, acordava com o estômago embrulhado, pensava nos beijos, nos secos puxões, nos encontros dos dentes, o momento eternizado na fotografia, as bocas suspensas, no exato momento em que as línguas roçavam os lábios, prontas para o duelo. Era assim agora, não tinha certeza de nada, apenas seguia.

Acordou, vestiu uma camiseta, abriu a janela, calçou o chinelo, primeiro o pé direito, desemborcou o par esquerdo, só então o calçou, abriu a porta do quarto, deu de cara com a mãe que cozinhava, a cozinha toda cheirava a pecado e a porco assado. Bom dia mãe alguém me ligou, Um copo de leite, meu filho, a mãe retornava e dava os recados, acariciava a mão dele, ele era o filho preferido dela, era o único filho vivo, era o único filho adoravelmente vivo. Nos olhos e no quadril, nos bíceps e no cabelo. Ligou um rapaz para você, meu filho.

Discou, do outro lado o barulho do fone sendo suspenso, a voz suave, Alô, sim, sou eu, como você está?, Vem pra cá, aqui a gente conversa melhor.

O Castigo

"And if the lights are all out I'll follow your bus downtown/
See who's hanging out"
Blondie - One Way or Another


Passou então a desejar a repetição de cada coisa que acontecera na noite passada, sentir a vida pulsando nos ouvidos, as mãos dele passando no seu tórax mirrado e liso, o desejo das palavras certas, um "eu já te achava interessante", a revelação de que o mundo é mesmo assim como diziam, não se pode mandar no peito e no púbis, não há guarda-chuva contra o amor.

Mãe, tenho que resolver uma coisa, bateu a porta de casa, era tarde da manhã, quase meio dia, era tarde, era quase noite, o céu era púrpura, violeta, rosa e todos os tons que abraçam os meios dessas três cores, um passo firme, o beijo da pedra, da mão, o soco da chuva, o tempo todo passando as mãos no tórax dele, mirrado, liso e delicioso, era como se fosse o prêmio final das revelações daquele novo mundo. Ninguém nunca havia dito que era assim que as coisas aconteciam, mas era assim que as coisas aconteciam, rapaz.

E então era daquele jeito diferente. Uma indiferença, um calor nos lábios, um beijo, um trevo, só dá sorte se você ganhar de alguém, um passeio, um sorvete, os sabores de fruta, limão para o peito, manga para a língua, uva para os olhos, tomado de sabores e noites escondidas na sala, ele se deixando descobrir e penetrar, aos poucos, há delícias que só se descobre se há coragem para seguir. Sê mais gentil, quero te dar um presente, você não se importa em estar aqui, não é? É assim que você pensa?

A Redenção

"Você é o cheiro bom da madeira do meu violão[...]
Você é a canção que consigo escrever afinal"
Caetano Veloso - Pé do meu Samba


Passados tantos anos, ainda pensava naquelas noites, nas cervejas e delícias, pensava em tudo e ainda via as marcas das unhas dele no seu peito bruto e amargo, os pêlos da barriga pediam a mão dele, prendia a respiração um segundo sempre que o via, mas isso nunca admitiria. Levaria para sempre dentro de si o recado final, a ilusão primeira, a verdade derradeira: "eu nunca pensei que isso fosse acontecer".

8 comentários:

André Gonçalves disse...

pauleira. pura pauleira.
grande. no sentido de bueno.
isso aqui promete.

karine disse...

todos os homens deveriam viver apaixonados, não?

Jucélio Jr. disse...

Meu filho, como sempre, é fascinante. Suas palavras sempre encantam, cara. Parabéns.

Biani Luna disse...

Viva todas as formas de amor, de desejo, de tesão...de paixão!
=*

Entreaberto botão disse...

"Não há guarda-chuva para o amor" foi, de tudo isso tão bom, o melhor. Vc está escrevendo cada dia melhor... Não me esquece por aí, que é para eu n ter que tomar fila pra pedir autógrafo tá?

Pedro Jansen disse...

car@ entreaberto botão,

agradeço o elogio, mas a frase que chamou sua atenção no meu conto é uma adaptação de frase dum poema de João Cabral de Melo Neto, intitulado "A Carlos Drummond de Andrade".

é possível ler o poema completo aqui.

obrigado pela visita e venha mais ao blog! :)

Edson Costa disse...

de peito aberto, sem ordem sem forma.

Rosa disse...

"Não há guarda-chuva contra o amor" Ainda bem, porque é numa chuva dessas que quero me encharcar qualquer dia desses... Ma-ra-vi-lho-so texto!

www.odamae.zip.net