segunda-feira, 14 de abril de 2008

Madrugadas foram feitas para?

"Trancou a porta?", ela sempre perguntava. Eu dizia que não era preciso, que não tinha perigo, que não precisava medo. Ela ficava tensa e só relaxava o canto dos olhos, dava um sorriso de satisfação, ficava com o pescoço liso e macio quando eu passava duas voltas na tranca.

A mesma porta que rangia, que fazia barulho, a do mesmo quarto de tantas tardes, de tantas noites, manhãs, confissões, desculpas e explicações. A mesma que um dia eu abri, passei, andei pela cozinha, olhei dentro de casa e não vi ninguém. Nem na cozinha, nem na sala, nem quarto de minha irmã, alguém escovando os dentes no banheiro?, não, nem tinha, nem no quarto de minha irmã, nem na sala, alguém vendo um filme. Não tinha ninguém. Energia também não. Era fim de noite, alta madrugada, no meio termo entre ser ontem por que ainda dormimos e hoje por que já acordamos. Não havia luz na minha casa, eu não queria velas, lá fora os faróis amanheciam o asfalto, doiravam as poças de água, era o que eu precisava para passar o tempo até o dia chegar de verdade e eu sair pelo bairro para ver o povo sair das casas. E ainda chovia.

Chovia fino, chovia um chuvisco fino e frio, sem vento, caindo lentamente, com preguiça, gota por gota sendo acordada no alto, convocada para molhar mais a terra molhada aqui embaixo e aí precipitada à força das nuvens pretas, negras, rubras, roxas e únicas - um bloco só de nuvens de todas as cores.

Ela ficou no quarto, no meu bolso, grupada nos meus pêlos, suada nas minhas costas, enrolada nos lençóis, enquanto eu pensava e saia de casa e chegava ao sítio do meu avô, via as águas do rio fortes e sem cabelos, como insistia minha mãe, as coroas inexistentes, as árvores deitando sobre as águas fortes do rio, as coroas não existiam mais, o outro lado parecia distante como quando eu era bem pequeno e via meu avô se meter no mato e buscar cana, e me ensinar que acerola se come do pé, mas que as folhas coçam, o futebol com os moleques do caseiro, o pôr-do-sol na água do rio, as cadeiras na porta da casa...

Saia pela porteira e via meu avô de longe, voltando com feijão, passando pelos pés de caju, as coisas da terra dele, os pés de manga frondosos, em círculo, as copas fechando o chão, as folhas forrando, escondendo os galhos, os pés grossos de andar e descobrir.

Eu via meu avô refletido em tudo aquilo, em cada folha, em cada gota de chuva que caia na plantação, nas telhas da casa e nos pedaços de vidro que faziam os olhos do cavalo de babaçu, nos jumentinhos feitos de maxixe verde e palitos de dente. Eu via meu avô refletido em cada cheiro da terra, em cada passo da terra que ele amava tanto, eu a via refletida em cada parede do meu quarto, em cada dobra do meu lençol, na cama curta, nas gotas de suor se empoçando no meu umbigo, no umbigo dela, nas poças na sala, as palavras lambidas no ar, os olhos se comunicando em diálogos extensos e profundos, os peitos batendo juntos, descendo e subindo juntos, a porta da casa de minha avó, as noites olhando juntos a janela, eu sozinho, vendo as poças, as luzes, as gotas caindo obrigadas, os carros passando, as coisas doiradas e o sono voltando quando já era dia.

"Trancou a porta?".

7 comentários:

Alícia Melo disse...

o arrepio. e pronto.

anely disse...

já sei com quem ficarei nas minhas madrugadas autocadentas

adorei, bjz pra todos cs
=*

Carlos Filho disse...

Nostalgia gostosa. Ainda mais com essa chuvinha incessante. Vou favoritá-los. (:

André Gonçalves disse...

meu avô dizia: "com'bolo"(em mineirês: come bolo!)
e ainda dizia (vendo a fernanda montenegro): "essa mulher não tem cara de fusca com para-choque batido?"

Entreaberto botão disse...

As lembranças são estranhas...

oseguinte disse...

ê um beiju!

Rosa disse...

Trancar as portas. Guardar os segredos. Arrepio aqui...

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